13/12/2007
Ontem, como há muito não fazia, li uma revista durante um dia chuvoso. E ainda que durante o estágio “desserviço” que faço, foi um dia agradável, sem lá muitas estórias pra contar, como a maioria das coisas estranhas dos últimos meses. Enfim, deu-me vontade de escrever após a última semana de palavras não lidas e construções quaisquer, ao menos tive animo de brincar novamente. Para ser mais preciso, a vontade só veio depois do desconforto diante de uma matéria polêmica. Isto me fez voltar algumas páginas a outro texto que surpreendera. Achei que, relendo-o, deixaria a controvérsia do texto que acabara de ler um pouco de lado e ficaria mais com a poesia do primeiro. Já simpatizei logo com a maneira pela qual o autor se identificava, era engraçada pra mim: Fulano de Tal “é o Outro, um cara igual a você. Idiota e solitário. Coisas de Poeta”.
E lá vinha ele falando de solidão, do nascimento à morte. Dizia ser a “foice afiada” uma chatice, com destaque para aquela que acontece em vida, permitida e autorizada. Já que, de qualquer forma, naturalmente, todos morremos, ninguém escapa. O ataque era contra a morte cotidiana, de todos nós, a solidão. Ele se perguntava se custaria algo ir ao encontro do outro, abrir a porta, essas coisas singelas. A resposta logo aparecia positivamente, é sim muito caro. Seria preferível nos enclausurarmos em nossa cabeça, citando Fernando Pessoa. Um sadismo que faz com que expulsemos de nosso universo esse Outro, voltando-nos apenas para nossos próprios pensamentos. Algo que poderia ser explicado, pois, no fim das contas, Ele não me entende, não compreende nem abraça. Desse modo, os meus problemas são, apenas e tão somente, aquilo que o pronome possessivo já indica.
O poeta conclui pela “estupidez” humana: um ser vivo que rejeita a Vida. Contrapõe-se, querendo abrir a alma, deixar sair o coração, entregando-se a braços e corpos estranhos, sem distribuir identidades inimigas pelos quatro cantos. A solidão é a morte. Uma responsabilidade pessoal, sobre a qual se deveria tomar as rédeas e não esperar pela ação desse tal de Outro. *
Há quase um ano fiquei entre “Outros”, quem sabe, em um assentamento rural no sul do estado. Foram cerca de quinze dias como membro de uma outra família. Lá, tinha dois irmãozinhos que me salvavam. A Bia lembrava muito o Dito, irmão mais velho do Miguilim, daquele mineiro do mundo todo. Ela sabia coisas inimagináveis, canções e histórias que gostaria de ter gravado para agora, por exemplo, nesse “ambiente” de trabalho, ficar escutando e fugir. Do Gú – ou como ele se apresentava imperiosamente: Luís Gustavo Siqueira Santos!!! – não tinha como escapar “ô, brinca cumigu”. Ela, quase pré-adolescente, já escorregava no mundo dos grandes, como a mãe, que já o dominava bem. Apesar de nova, Márcia era tão velha... Gú não, ia fazer quatro anos, o negócio dele era o “tratorzão” do pai. Este, doloridamente, me causava um aperto fabiano, Graciliano Ramos não imagina a aridez silenciosa de sua obra.
A maioria dos dias caminhava pela agrovila, crianças havia por toda parte e a convivência com algumas delas rende pano pra manga que não acaba. Um dia o Gú me acompanhou no andar. Enquanto nos divertíamos, ora a pular, ora a enfiar o pé nas poças de lama e espirrar barro pros lados, chamava-o pra perto, vinha um carro, um trator, uma carroça ou qualquer outro veículo. Raramente ele segurava minha mão, dizia para o soltar, mas eu apenas pedia pra que ele tomasse cuidado com os veículos, e logo ele saía. “Nossa como ele é independente, né? Bem resolvido, autônomo, maduro... e tão novinho!!!” Pois é... quando retornávamos pra casa, coloquei minha mão sobre a cabeça dele e a balança brincando. Já meio cansados, diminuímos o ritmo e o balanço virou carinho, afago. Ele deixou encostar a cabeça e ficou quieto alguns instantes, junto de mim. De repente, pulou a frente dizendo para o largar. E eu nem o estava segurando. Chegamos em casa.
A gente só se dá conta de muitas coisas bem depois, principalmente, daquelas que de maneira equivocada fizemos. Aqui, vivo atropelando, perco grandes oportunidades de permanecer calado, distribuo mancadas, até mesmo brincando faço besteiras. Lá, espero não ter feito nada de muito desastroso, procurei sempre respeitar a tal da “não intervenção”, mesmo sabendo que só a presença ali já era uma alteração, de alguma forma. Não ia ficar dizendo “puxa mãe, você nunca diz um bom dia para as suas crianças, não tem um gesto de acolhimento, uma palavra doce, a não ser gritos e ameaças”. Porém, Márcia comentou numa confraternização entre aqueles que estavam na mesma situação que eu, estagiário, juntamente com e as respectivas famílias de cada um deles, na qual meus irmãozinhos tiveram que ficar em casa, que eu parecia não ter tido infância enquanto me escondia no piquesconde.
De lá trouxe o Gú, já que aqui - a oposição entre o lá e o aqui não é das melhores, ainda que possa ajudar a compreender, vivendo as coisas se misturam - o (re)encontro de várias maneiras. Arredio, mas só aparentemente.
Platão e a tal da dialética socrática, sua concepção de universo e vida talvez dêem algum rumo pra falar, enfim, de amizade. Sem entrar no mérito da procura pela verdade transcendental, a dialética é antes de tudo uma conversa desinteressada, uma troca de palavras qualquer entre duas ou mais pessoas por meio da linguagem. Ela coloca sempre enunciador e ouvinte, reciprocamente. É um desprendimento de si, uma vez que o “amor de si próprio”, conforme o platonismo, seria o maior defeito do homem. Mesmo assim, essa troca não é de “és” (por mais paradoxal que seja a construção dessa oração), não há nenhum tipo de morte de conhecimento, ninguém solapa a palavra do outro por uma sobreposição de verdade. A dualidade, a oposição não estabelece um enfrentamento, ou ainda uma procura mútua de uma terceira verdade a ser enunciada e seguida. A concepção de Platão preocupa-se com o meio do caminho. O Sócrates platônico busca a verdade, mas só pode vê-la, e quer, acima de tudo, vivê-la. Aparece então o Amor como um desejo, uma loucura por esse outro, seu amado. Amor que é um desejo pela beleza das Almas, associadas aos deuses e à verdade. Ele é solícito tal como o deus a que serve, Eros, filho da carência e da impetuosidade, oscilando entre estes.
Não falta gente pra dizer que amizade é uma coisa e amor é outra, ancorados naquele velho truísmo altissonante: “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Sou apaixonado, de formas diferentes, por cada um de meus amigos. Só que, nesse momento, sempre surge alguém com uma moldura, uma grade, ou melhor, uma jaula mesmo pra aprisionar a vida e os significados dela. Entra em cena um verdadeiro glamour cientificista, quando não biologicista. Pra mim, “necessidade” é muito perigoso, desde psicanálises de botequim, passando por sociologias de taverna, até medicinas de qualquer coisa. Se quiserem chamar assim não dêem ares totalitários ao termo. Pois entre seres humanos, talvez, ainda resista uma tal humanidade, e com ela algo que se chama de vontade. Quem sabe o viés racional universalista – e pessimista, que aparece diante do uso do termo irrefreadamente, ou que é apenas um estorvo pessoal - me incomode um pouco, esse olhar sem poesia para o mundo e os seres humanos. Nada como um bom poeta: “eu ainda acredito no ser humano”, dizia Carlos Drummond de Andrade.
Espero ainda que tenhamos razões que a Razão desconheça. E que análise nenhuma, psicanalítica ou farmacológica, por mais que procure, não consiga dar nomes a essas razões nos inconscientes pela Razão. Melhor dizendo, espero que a vida tenha razões que essa Razão específica desconheça. Nomes são palavras, estabelecem finitudes no mundo, um monte de “és”, que não mais serão apenas “sendo” e nunca mais poderão “ser outra coisa”, pois já “são”. As palavras e uma tal de Razão historicamente marcada deixam o mundo quase sem transformação. E criticar determinada Razão que aparece, às vezes, sorrateiramente, pelo uso da precisão ou da necessidade não é ser irascível. Dizer esses “és” faz um “ah, então, pronto, faze o quê, né?”.
Essa tal necessidade, ainda que compartilhada aqui e acolá, pode oprimir outros. Ela parece não respeitar as vontades diferentes, as temporalidades de cada um. Não adianta insistir com essa racionalidade sociologista sobre as relações interpessoais, a gente só sofre. Contra o individualismo moderno, a necessidade pode só reforçá-lo, sendo nada além do que a sua expressão, paradoxalmente. A Vida tem vontades frente às necessidades. O humanismo político acaba então atropelando humanidades. Se a necessidade grita, não custa lembrar que a vontade também pode silenciar. E isso ainda diz muita coisa, porque silêncio é linguagem da mesma forma, apenas comunica significados de maneira peculiar. O mesmo acontece quando não sabemos, mas simplesmente choramos, os significados persistem. Há um problema, distinguir esse silêncio de indiferença, ou alheamento. Talvez, o que alguns chamam de “tempo” possa resolver. A introspecção também se confunde com alheamento, enfim, parece sempre confuso. O jeito é ir com cuidado, prestando atenção, quem sabe, assim, não atropelemos tanto uns aos outros. O clamor da necessidade pode inibir a vontade, no fim das contas.
O divertido da amizade não é o que se diz, mas a maneira como cada um diz. Não posso ser tão hipócrita, nos preocupamos, claro, com o que dissemos todos. O que coloco aqui também é um monte de “és” sobre algo, não deixa de anunciar verdades. Só não quero que não sejam ordens, constrangimentos, ou coisas do gênero. Pelo que digo aqui e acolá e os outros por aí, de vez em quando, não precisa ser sempre também, a gente amarra, vai aos poucos por esse mundo, construindo significados e rindo a fora.
Mais “és”: amizade não é favor, nem cobrança. Com essa vida bancária, só falta a gente pedir extrato pros amigos agora, todos os por quês, pior que aquelas “tias” ciumentas. Amizade respeita, tem paciência, espera, não mistura pressa com gentileza. Ela silencia e até mente, possivelmente. Embora, não seja dessas mentiras contrapostas À Verdade, são apenas aquelas pequenas mentirinhas, ou mentiras sinceras, pra não esquecer do Cazuza, colocadas frente a umas verdades mesquinhas e inconvenientes. Afinal, tem verdades que destroem ilusões, e mesmo que necessitem, às vezes, serem ditas para simplesmente (re)construir novas ilusões, em outros momentos não custa nada serem aquietadas. Não há como saber essa temporalidade que vai se desenhando. A vida já é complicada demais para viver, saber suas exatidões então... melhor assim, a gente aprende, erra, vai vivendo.
Calma lá, me dá faniquito, pavor, coceira, ansiedade, sufocamento, delírio, tudo do pior de ruim com o tipo de amizade-de-trabalho que encaro. Isto tem a maior atrocidade que é possível cometer, quando se associa essa mentira à falsidade, numa espécie de barganha. Um ganho de favor esperado, uma ampliação de QI tecendo uma rede de aparências. Um cinismo gritante (de fazer gritar “pára tudo”), desses que parece se fazerem conscientemente – vivo torcendo pra ser inconsciente – num jogo, de fato, manipulação mal disfarçada. Planejando relações de poder, umas palavras aqui, outras ali, ainda outras acolá, o teatro da vida burguesa então perde qualquer poesia e enlouquece de uma maneira diferente, sei lá como, todavia, não chega nem perto do maluquismo amoroso.
Confesso, desejar esse outro é complicado, exageramos, perdemos a medida, enlouquecemos, sufocamos mutuamente. Aquela loucura pelo amigo, ou amado, tanto faz, transforma-se numa chatice. Por isso, talvez, eu viva pedindo desculpas para as pessoas que gosto. Até mesmo no jeito de brincar acabo, desajeitadamente, atropelando, enlouqueço e peço desculpas de novo. No mais recente atropelo ainda nem fiz isso, pra não ser mais chato novamente.
É, já rodopiei bastante, e me parece que os fragmentos dispostos podem se contradizer. Não consigo concluir. Ironicamente, não vejo necessidade de concluir também, só tenho algumas vontades.
Espero continuar encontrando o Gú, deixá-lo com o meu caderno e os tratores dele desenhados. Exercitar a tal da dialética socrática, sem aquela pretensão universalista de verdade “pra fora”, ficar então contemplando a beleza das Almas. Não dizem que os olhos são as janelas? Encontrar assim o olhar no acaso desejado, que gera uma ansiedade enorme. Quem sabe também, sair da solidão e da morte do dia-a-dia, como queria o poeta. Por mais que, ultimamente, sinta que precise ficar sozinho e, por conseqüência, deixar as pessoas mais sossegadas. Sonhar, com expectativa de que o guarda-chuva fique de lado e que a água do viver enfim molhe, como queria Hanna Arendt.
Nesse instante, transparece o vício de um academicozinho de merda, não escapo das citações, e termino com uma de um jornal. Nem sempre gosto dos textos dele, mas este me impressionou bastante, Contardo Calligaris: “Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa (...) a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal”. E como isso é difícil...
HUGO CIAVATTA
Nenhum comentário:
Postar um comentário